O TELEFONEMA = by Michel Serdan

Os lutadores mais antigos, que convivem ou conviveram comigo, sabem da dificuldade que tenho em guardar datas.
De aniversário então é um terror. Não lembro do meu, como vou guardar a dos outros.
Quinze dias antes do aniversário da Aida, começo a montar um esquema. Amarrar barbante no dedo, bilhete no bolso, aviso as alunas dela, apelo até para o face.- Corria o ano de 1987 e um dia recebo um telefonema de Curitiba, Paraná, do lutador “Brasão” dizendo que corria risco de vida e se podia vir para São Paulo, para morar e integrar a equipe dos Gigantes do Ringue. Mandei que viesse.
Na Academia da rua San Gennaro, tinha um quarto, que era onde as equipes se alojavam quando chegavam de shows na madrugada, e, lá ficou Brasão o Príncipe de Ouro. Quase um ano se passou, aliás, Brasão nunca mais voltou para Curitiba e nem para a família, sendo morto em São Paulo, mas, voltando ao assunto, um dia a mulher dele liga e pergunta se eu tinha visto ele naquele dia. Olhei para o relógio e vi que eram quase 17h00 e respondi que não. Foi então que ela abriu um chororo lascado. Porque aquele sem vergonha me esqueceu, ele não presta, deve estar com as vagabundas, hoje é o meu aniversário, que custa ligar e blá, blá, blá. Eu achando graça em tudo botei mais lenha na fogueira. Uns 10 minutos depois ela me pede para que eu fale com ele e desligou.
Olhei para a Aida que calada prestava atenção em tudo, falei:- Esse Brasão não vale nada mesmo, poderia dar um telefonema para Curitiba, hoje é aniversário da mulher e, completei, “Se fosse as vagabundas ele não esqueceria e com certeza já tinha ligado”. A Dona Aida olhou para mim e soltou:- HOJE É O MEU TAMBÉM!!!
A casa caiu, caiu = A casa caiu, caiu.

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