“Copa do Mundo de 1970” – by Michel Serdan #91

O GDR está com vários alunos prontos para serem lançados, alguns deles me consultam a respeito do nome que querem adotar. Normal, isto sempre aconteceu na luta livre, parece até um ritual.

Quando lancei a “Nova Geração” evitei que tal coisa acontecesse, a maioria dos lutadores eram fisiculturistas já famosos e não via nescessidade de trocar de nome. O único mesmo que eu escolhi o nome foi do Motoqueiro Falcão, pois tinha planos para ele, mas ele nunca deixou de ser o Alexandre Fuzita para os amigos, campeão mundial de Jiu-Jitsu (título conquistado no Rio de Janeiro) considerada, na época, a meca do jiu-jitsu. Como fisiculturista sempre que competia, quando não ganhava, estava entre os primeiros.

Caso curioso aconteceu quando chegou um neguinho todo rasgado na academia para treinar luta livre, seu nome: Sergio Anacleto. E o Cassiano, meu filho Irlandês, bateu os olhos nele falou: – “Pai, repara como esse cara é a cara do ‘Blade o caçador de vampiros’!”. Ficou “Sergio Blade”. Hoje teria colocado seu nome de “QUEBRA-OSSOS”, imaginem que ele teve a coragem de mandar-me uma mensagem pelo face, agradecendo por ter citado o nome dele e feito referencia ao fato de ter me quebrado 4 costelas! É muita audácia para um cara daquele tamanhão!

Quando você adota um nome e começa a fazer aparições em TV’s, vai marcando e o nome acaba ficando para sempre. Muitas vezes um novato adota o nome e com o passar dos anos acaba tendo vergonha dele. Não é o meu caso, pois não tenho vergonha do meu, mas passei boa parte da vida explicando porque Antonio Carlos de Aquino virou Michel Serdan, e entrava como francês. Isso acontece quando você adota um nome estrangeiro.

Em 1970, o Brasil iria, no domingo, disputar o titulo mundial (copa do mundo) contra a Itália. Um dia antes, no sábado, eu iria lutar na TV Excelsior (Canal 9) contra o lutador Cavernari (hoje, Cel. da PM aposentado, Odilon Gonzaga). Eu era base, e como ninguém vai perguntar mesmo vou avisando… Era um bom base, um basão! A nossa luta era a final de um programa de 5 lutas. Antes de entrar, o dublê do empresário e apresentador Edson “Bolinha” Cury chegou para mim e falou: – “Serdan, o clima e a audiência aqui hoje é de Copa do Mundo. Se vira! Faça alguma coisa”. Chamei o diretor do programa e pedi que escrevessem em uma cartolina “Itália 3 x 0 Brasil”. Chamaram o meu nome, entrei, era só bandeiras. Esperei chamarem o meu adversário Cavernari, e eu com a cartolina enrolada debaixo do braço. Bate o gongo, desdobro a cartolina, mostro para as câmeras e viro-me para o publico, o silêncio era total até que alguém da platéia gritou: – “Francês filho da puta!!!”. Aquilo virou um inferno! Ainda consegui ver a multidão se levantando e vindo em minha direção. Nesse momento fui agarrado pelo pescoço pelo meu adversário, que cochichou no meu ouvido: – “Vou dar uma joelhada no seu nariz, vai sangrar um pouco, mas a multidão vai se acalmar”. O Cavernari era um dos maiores judocas do país, além de policial, e sabia onde bater. Meu Deus! Senti o osso do nariz quebrando, o sangue esguichando, consegui me levantar e olhar para o publico. Vi que uma Bandeira enrolada num mastro mais grosso que um cabo de vassoura descia em direção a minha cabeça. Aparei e o quebrei na perna. Foi a ultima coisa que eu vi e ouvi!

Acordei, sei lá quanto tempo depois, e parecia que uma boiada tinha passado sobre mim. O local estava cheio de policiais fardados e civis do DOI-CODI e eu me lembrei que estávamos em plena ditadura e eu era “Francês”. Acordei rapidinho, escutei o Cavernari, que nesta altura era oficial da Guarda Civil, que tinha o poder de policia, explicando que eu era brasileiro e que o cara com a bandeira enrolada queria quebrar a minha cabeça e eu apenas me defendi. Acabou tudo bem. O efeito da joelhada pago até hoje, colocando “afrim” toda a noite. Por isso, novato, pense bem antes de escolher um nome!

Abraços!

FRANCÊS 004

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