[Entrevista] Blog ‘Nas Cordas’ entrevista Michel Serdan

Entrevista de Michel Serdan para o blog Nas Cordas.

Acompanhe as 3 partes da entrevista nesse post, ou nos links:
PARTE 1 | PARTE 2 | PARTE 3

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PARTE 1

No Brasil, é impossível falar em luta-livre sem falar em Michel Serdan. Décadas dedicadas ao esporte que o consagrou lhe deram, dentre outras coisas o status de ícone e figura fácil nos programas de TV, comerciais e campanhas publicitárias. Nessa entrevista, o criador dos Gigantes do Ringue conta porque não deixará a luta-livre morrer.

Bom, Michel, lá se vão mais de 50 anos de carreira (me corrija se eu estiver errado) e mais de 30 anos de Gigantes do Ringue.
Você está certo! Estreei profissionalmente aos 17 anos, ou melhor, em 1960. Claro que me orgulho disso, mas, preferia estar no lugar do Kadú ou do Rony Kidd, que estão começando uma carreira agora e cheios de gás. O Gigantes do Ringue é a minha paixão e defendo essa marca contra tudo e contra todos. Hoje Gigantes do Ringue é sinonimo de luta-livre, e é conhecido no Brasil e no exterior.

Você começou com o lendário empresário Chico Sangiovanni…?
É verdade! O Sangiovanni foi o maior empresário de lutas (boxe e luta-livre) que o Brasil já teve. Foi o homem que, por indicação do lutador Cangaceiro, que na época era conhecido como Tigre Sangrento, me colocou no luta-livre profissional. Fiquei contente porque os amadores não recebiam cachês e só faziam lutas preliminares.

E o que mudou na luta-livre nesse tempo todo? Era mais fácil fazer?
A luta-livre mudou muito nesse tempo todo. Agora, se era mais fácil ou não é uma questão de interpretação. Antigamente não existia muita coreografia, eram mais socos e pontapés de um lado e draps e tesouras voadoras do outro. Era mais dolorosa, mas você se machucava menos do que hoje em dia, onde se realizam, além da coreografia, quedas violentíssimas e os lutadores se machucam mais. A luta de antigamente era muito repetitiva, cansava o publico, que acreditava em tudo. Hoje, não pega mais porque os fãs sabem que é show, mas acreditam nas quedas, que são verdadeiras e também gostam das history lines.

Eu lembro que, nos anos 80, o progama Gigantes do Ringue tinha uma audiência incrível e até uma coluna semanal no jornal Notícias Populares. Qual é o público dos Gigantes do Ringue?
Realmente, a audiência era incrível. Fizemos em 1987 uma luta na jaula e ultrapassamos a Globo e eu me realizei duas vezes, primeiro porque lutei e recebi um telegrama do Boni, da Globo, me dando os parabéns. Naquele tempo ainda não existia e-mail, essas coisas…

Mas, por que, mesmo assim a luta-livre desapareceu da TV aberta? Por que não deslancha?
A luta-livre, no Brasil não deslancha porque a maioria ainda faz lutas para as classes C e D e esse é o X da questão. Mesmo as empresas que fabricam produtos populares não fazem mídia para C e D. Vejam como exemplo as sandálias Havaianas, que são populares, mas os comerciais são chiques, só com artistas famosos. O povo gosta do que é bom, ele fica feliz usando roupas de marca. As empresas não gostam de unir seu nome a produtos, embora fabriquem, para a classe mais pobre. Nós, do GDR tentamos fazer um programa mais sofisticado, não sei se conseguimos, mas, que tentamos, tentamos.

Você foi o primeiro a colocar no ar, nos tempos da Record, luta-livre feminina, que já era muito popular em países como Estados Unidos, México e Japão há décadas.
Essa foi uma grande vitória nossa e do saudoso Paulo Machado de Carvalho, o “Sr. Paulinho”, dono da Record. Naquele tempo, ainda vivíamos sob o julgo da Censura Federal que proibia mulheres sobre o ringue na TV e nós, à revelia dos censores, colocamos a primeira luta de mulheres. Éramos obrigados a entregar um roteiro das lutas, só que não colocávamos os nomes das lutadoras e quando percebiam a luta já estava no ar. Ameaçavam, falavam um monte, mas o Sr. Paulinho sempre me falava: “coloca as mulheres, que eu segura as broncas”. E eu as colocava.

E por onde andam essas lutadoras?
A Neru, a Mulher Gorila já faleceu e a Índia Amazonense vive em um sítio, ao lado do meu, em Itatiba, interior de São Paulo.

Você também causou polêmica, quando lançou o Gigantes do Ringue – A Nova Geração, na Gazeta e começou a recrutar fisiculturistas para lutar. Como os lutadores veteranos viram esse “novo perfil”?
Foi aí que passei a ser odiado por muitos. Eu parei em 1990 com a TV Record por causa dos lutadores, muitos me levaram à Justiça do Trabalho e eu, graças a Deus, ganhei todas as causas. Quer saber por quê? Porque nunca fiquei devendo um tostão para nenhum lutador. Se um lutador chegar para você e falar que o Michel lhe deve, pode apostar e chamá-lo de mentiroso. Na Gazeta, os veteranos chegaram a fazer reunião com a diretoria da emissora para que me obrigassem a colocá-los na programação, mas eu tinha um projeto e expus para os diretores que me apoiaram e, com o tempo provei que estava certo, pois foram cinco anos no ar, líder de audiência na emissora e segundo lugar de Ibope no horário.

Mozart, Belo ou Aquiles? Qual era o pior adversário?
Meus piores adversários foram, por ordem, Aquiles, Belo e Mozart. O pior era o Belo, porque no meio do primeiro round, baixava o diabo no corpo dele e, à partir daí tornava-se muito perigoso. Se alguém, naquele momento, entregasse uma faca para ele, ele a espetava em quem estivesse na sua frente.

Mas, naquelas lutas que eu via quando era moleque, entre você e o Aquiles, aquele sangue todo era real?
As lutas com o Aquiles eram bastante reais. Na nossa luta na jaula, em 1987, perdemos tanto sangue que resolveram nos internar em um hospital para passarmos a noite em observação.

Sabe que eu sinto um pouco a falta daqueles personagens lendários, tipo caveiras, monstros, caipiras, vikings, índios… Por que hoje, eles lutam apenas com seus nomes verdadeiros ou apelidos…?
Eu acho o seguinte: desde que existe a luta-livre, sempre existiram esses personagens, hoje entrar como um personagem deve ser uma volta ao passado. Na verdade o lutador é que decide se quer ser um. Um lutador da categoria de base do GDR, estreou recentemente, ele entrou com o nome de Tony Angel e usa uma roupa e pintura no rosto que lembra o personagem do filme “O Corvo”. Eu não influenciei em nada.

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PARTE 2

Na segunda das três partes da entrevista que Michel Serdan concedeu ao blog NAS CORDAS, ele fala da época em que lutou mascarado, dos lutadores que viu nos ringues e da WWE no Brasil… Confira mais um pouco do bate-papo com o lendário MICHEL SERDAN!

Mas, você já lutou mascarado, né?
É, eu tinha um personagem que durou mais de dez anos e se chamava Mister X ou Senhor X. Conheci no ano de 1965 o empresário, famoso na época, pois cuidava das lutas do nosso Eder Jofre, Sr. Abraham Katznelson, que convidou-me para uma excursão, é o mesmo que trouxe os Gigantes do Ringue ao Brasil. Naquela época não dava para viver da luta-livre, então eu era funcionário do departamento de contabilidade da maior fabrica de biscoitos no Brasil, a Biscoitos Aymorés. Ficava na Barra Funda, onde hoje é a rede americana Walmart e era dirigida pelo meu amigo e patrão Sr. Carmine Urciolli e pelo seu filho Miltinho Urciolli, que patrocinavam as lutas na TV Excelsior do Edson “Bolinha” Cury e também me patrocinavam.

E como o Michel se transformou no Mister X?
Foi tudo muito simples: Katznelson chegou, perguntou quanto eu ganhava na Aymorés e fez uma proposta que aceitei na hora. No outro dia pedi demissão da fabrica. Eu tinha a maior vontade de lutar mascarado e propus lutar com o nome de “O Santo”, mas como o lutador mexicano de mesmo nome iria fazer umas exibições em nosso país, tive que optar por outro nome e, assim surgiu o Sr.X.

Já havia o Fantomas naquele tempo?
É, o único mascarado, no Brasil, naquela época era o Fantomas e o Mister X surgiu com um tipo de luta diferente e logo explodiu.

O que ele tinha de diferente?
A elegância do personagem, todo de branco… Aí, logo correu a história de que era um médico, filho de milionários e que os pais não podiam saber, sentiriam vergonha se soubessem que o filho era lutador. Esse personagem recebia uma média de 400 a 500 cartas por semana, a maioria solicitando serviços do médico. Naquele tempo tinha dessas coisas.

Por que, hoje não há mais lutadores mascarados, como há no México, no Japão…?
Eu tenho a minha versão, a minha opinião. Antigamente os lutadores eram mais profissionais. Os mascarados faziam o impossível para esconderem suas identidades. Em todos os anos de mascarado nunca ninguém perguntou se eu era o Mr. X. Nunca ouvi ninguém perguntar para o El Toro se ele era o Fantomas, ninguém sabia quem era o Cavaleiro Vermelho, quem era o Leopardo… Nós levávamos uma vida difícil, isolada. Éramos largados nas entradas das cidades onde íamos lutar para que passássemos despercebidos.

Sério?
Fazíamos nossas refeições em lugares diferentes do restante da equipe, nos hospedávamos em outros hotéis. Hoje, não acontece nada disso. Se um lutador for fazer uma estreia mascarado, antes de estrear já tem gente sabendo, então perde o encanto.

É o poder da internet… (risos)
Pois é! Conheci um lutador que pendurava sua fantasia na janela do apartamento, para todo mundo ver. Esse mesmo lutador colocava a esposa na primeira fila de cadeiras e ao entrar entregava a capa para ela, dava um beijinho e depois da luta saiam juntos.

E quem era esse lutador?
Não adianta perguntar que eu não falo! (risos) Conheci outros, mais recentemente, que para ganharem as mulheres combinavam sinais para que elas acreditassem que eram eles que estavam sob a roupa. Por isso tudo, os mascarados foram perdendo o encanto, fazendo com que nós, os empresários, perdêssemos o interesse. Existem alguns países em que o publico sabe quem é o mascarado, como o Rey Mistério, mas aí é outra cultura.

Quem foi o melhor lutador que você já viu num ringue?
Puxa, são mais de 50 anos de lutas. Vi muitos, mas muitos lutadores mesmo. Bons de verdade foram Cangaceiro, Caruso, Brandão, Butcher, Tigre Paraguaio, Brasão, Corisco, Falcão, Erivan Paulino… Dessa fase mais recente do GDR, que batizamos de “Evolution” não vou citar ninguém, porque aí não treinam mais. (risos)

E o pior?
Também vi muitos! Muito mais que os bons, mas não vou citar ninguém. Até porque eu acho que nenhum é totalmente ruim, ele é mal treinado, talvez por falta de tempo, de lugar ou por preguiça. Aliás, você quer me lascar, né? (risos) Os meus piores inimigos são os piores lutadores, pronto!

Durante algumas semanas, você esteve à frente de um programa da WWE no SBT. Por que não deu certo?
Não foram algumas semanas, foram exatamente três meses. A WWE é um fenômeno mundial. Na estreia chegamos a dar 18 pontos de pico na audiência. A TV Record, nessa época disputava com o SBT o 2º lugar em audiência e com a entrada da WWE, consolidou o seu lugar, incomodando muita gente. Mas o problema foi o horário: 16h da tarde e o Ministério Publico não aceitou pela violência, e quis obrigar o Sr. Silvio Santos a mudar o programa de horário e ele não aceitou. Então, foi obrigado a tirar do ar. O Brasil gosta da WWE e se derem certo algumas negociações também irão aprender a gostar da TNA.

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PARTE 3

Na terceira e última parte da entrevista com Michel Serdan, polêmicas não faltam. E que mito consegue viver sem as famosas polêmicas. Mas, a lenda da luta-livre não foge da briga e encara todas as perguntas do blog NAS CORDAS!

Qual foi o maior lutador que já viu lutar?

O lutador mais impressionante que já vi sobre um ringue chamava-se ou chama-se (não sei se ainda esta vivo) Gorila Peres. Lutei muito contra ele. Era um equatoriano, não lembro se esteve no Brasil. Atualmente, a luta que mais me impressionou foi gravada para a Rede Brasil e logo estará no Youtube. Foi entre o Kadu e o Erivan Paulino, dois superatletas do GDR.
Você disse que o Boni tinha planos para levar o Gigantes do Ringue para a Globo. Vocês chegaram a fazer um piloto?
Chegamos a fazer um piloto para a TV Globo, sim. Foi gravado no Grajaú Country Club, no Rio. O Boni disse que os filmes que entravam depois do Fantástico perdiam para o Topa Tudo Por Dinheiro, do Silvio Santos e que o nosso piloto, se aprovado, iria esperar o lançamento de um programa humorístico, que estava para estrear. E que, se não desse certo entraria o Gigantes Do Ringue. O humorístico era o Sai de Baixo e o resto todo mundo sabe.
E o que você pode nos contar sobre a estreia da TNA no Brasil?
Por ter trabalhado para a WWE e não ter sido convidado para esse retorno no canal Esporte Interativo, amigos meus de Miami entraram em contato e me deram exclusividade para o Brasil. Estou correndo atrás de uma emissora, mas está difícil, pois os programas da TNA têm duas horas e isso é difícil na TV brasileira.Já ouvi alguns lutadores que lutaram no GDR falando mal de você. O Michel é tão carrasco assim? (risos)
Não é verdade, só saem falando mal da equipe e de mim os que são expulsos do GDR. O seu problema é que você começou a se interessar pela luta-livre, conhecendo o lado podre do esporte.

Calma, Michel, não estamos falando de mim, estou falando dos que falam mal de você por aí…
E eu estou falando do Mario Boy, que foi expulso do GDR. Ele é paranóico e psicopata. Quando ele esteve preso, ainda rodando pelas delegacias, a mãe dele, dona Neide vinha me pedir para que eu fosse visitá-lo para conversar com o delegado para transferi-lo para uma cela mais vazia. Eu ia e com o meu prestígio conseguia para ele algumas regalias. Eu consegui sua transferência para a antiga Casa de Detenção de São Paulo, cujo diretor, o doutor Pedroza, morto pelo PCC era como se fosse da minha família. Depois, consegui transferi-lo para Franco da Rocha, onde o diretor, o doutor Guilherme, também é muito meu amigo. Fui conversar com o doutor Ivo de Almeida, juiz corregedor de todo o sistema prisional de São Paulo e humildemente pedi sua liberdade porque eles não tinham advogado. Prometi me responsabilizar por ele, arrumei emprego de motorista na gráfica do lutador Belo, também meu amigo e o doutor Ivo mandou soltá-lo. Quer dizer, salvei a vida de uma cobra que depois me picou. O filósofo Francês Jean Paul Sartre já dizia: “não importa o que fizeram para você, o que importa é o que você faz com o que fizeram para você”.

Mas, existem outros lutadores que não têm uma simpatia pelos Gigantes do Ringue…
O que acontece é que tem alguns lutadores, principalmente da BWF que não me conhecem e por ouvirem falar mal de mim, também falam mal. O maior exemplo disso é o Igor, o Insano, que alguns meses atrás, resolveu me conhecer. Veio até o GDR e conversamos por umas três horas, e até beijinho saiu na despedida. E ele falou para mim: “hoje, conheci o ‘homem’ Michel Serdan e quero ser seu amigo, mas (tem sempre um “mas”) continuamos rivais na luta-livre, porque eu sou BWF.” Eu aplaudi.

Você se arrepende de algo na vida?
Se eu me arrependo de algo na vida? Hum… (pensativo) Sim, eu me arrependo de ter ajudado muito o Aquiles, de ter ajudado muito o Homem Montanha, de ter acolhido no GDR o Xandão e o Chiarelli e de ter tirado o Mario Boy da cadeia.

Se na próxima encarnação pudesse voltar como outra pessoa, quem você gostaria de ser?
Voltaria o mesmo Michel Serdan e de diferente não teria realizado as coisas que fiz na pergunta anterior.

Todo grande homem tem ao seu lado uma grande mulher. No seu caso é a Dona Aida…
Sim, ela é minha esposa, amiga e companheira, me acompanha e me apoia. Nós sempre agimos de comum acordo em tudo.

Deixe um recado para os fãs da luta-livre e para os que querem entrar para a luta-livre!
Uma vez escutei isso de meu ídolo maior, Hulk Hogan: “Eu não sei quem colocou a lua lá em cima, mas de uma coisa tenho certeza, ela, assim como a Terra tem um pó mágico, azul que lhe dá poderes”. Você pode ter o que quiser, é só correr atrás.

Valeu, Michel, obrigado pela entrevista. Foi um grande prazer termos você no NAS CORDAS.
Muito obrigado por me dar a oportunidade de mostrar para os visitantes do blog NAS CORDAS um pouco do Michel Serdan, e só quero dizer o seguinte, me queiram bem, não custa nada. Bye, bye!

Aos interessados em se tornarem Gigantes do Ringue:
ACADEMIA GIGANTES DO RINGUE
Rua do Acre, 363 – Mooca – São Paulo – SP
Tel: 2607-6048

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